quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Petra


Porque esse deveria ser meu nome.

Sempre. Sou pedra, não me movo, e tchabum, o mar bate em mim o tempo todo. Quero ir também, mas não consigo. Jogo uns cascalhos, finjo que vou, sabe? Finjo que vou, e as pessoas acreditam. Mas eu não vou, eu nunca fui, e às vezes duvido que algum dia consiga ir. Porque sou pedra, porque sou petra, porque sou roccia, rock, stone, erigiram-me aqui e aqui estou e tenho muito medo, e tenho tanto medo, meu Deus, quanto medo aqui dentro, e já sou meio medo e meio pedra, dura, tudo duro, tudo tão frio.

E dentro de mim às vezes desejo que fosse oco, pra poder me deixar mais leve, mas não sou passagem, e sim acumulação, e tá tudo acumulado, aqui dentro, olha, tudo tão acumulado e amalgamado, mesmo aquilo fragmentado está todo aqui, nas caixinhas, e não vou porque não posso, porque não tenho raízes mas sou tão pesada, aqui, entre toda essa massa pétrea que um dia achou que eu pertencia àqui, e eu acreditei, e deixei, e fiquei. E agora não tem eu que não fique, porque fiquei e fico, e resto.

Por isso os peixes passam por mim e riem. Por isso as ondas passam e avançam sobre mim. Por isso as algas aproveitam e se prendem em minhas pernas, e por isso eu grito e o grito que ninguém ouve vira pedra também, ele também.

Que Midas irônico esse, que tudo toca e tudo gruda, e amalgama, e fica dentro, bem dentro, bem fundo, e não larga, e craca, e petrifica.

E esse é meu segredo mais íntimo.
Podem ir embora, agora.
Vão e não olhem pra trás.
Porque de estátua basto eu.

9 comentários:

m.soldi disse...

caralho!
i'm stone(d) too

Charlie Liu disse...

por isso que quando eu crescer quero ser igual a vc... pedra, mas com uma bela forma que o tempo moldou.
tenho muito orgulho de poder conhecer pessoas que nem vc, Lele.

beijos

Fernando disse...

Olha, belo texto... belo mesmo!
Tava lendo aqui com a impressão que no final estaria escrito: assinado Fernando [meu nome]. Muito pedra eu tb!!!

Celia disse...

Não te conheço , mas teu jeito de escrever é de uma sensibilidade que dói na gente.Li teus arquivos até , e chorei ao ler o post sobre teu pai.Triste e bonito isso , de passar pela vida.



http://le-fleur-blanc.livejournal.com/

Rayssa Galvão disse...

Não se deixe enganar, que as pedras também se movem, só que vão mais devagar.

É só deixar o vento e a àgua passarem e o tempo fazer o trabalho dele, que logo você vai deixar esse peso ir embora, se espalhar em muitos pedaços por aí

E aí vai ser um seixo, desses achatados e arredondados e bons de fazer quicar 3 vezes em cima do espelho d'água.

André Tinoco disse...

Acho que todo mundo é um pouco assim, não? Somos produto de nosso ambiente e de nossas vivências. Aglutinamos conhecimento, nos moldamos, absorvemos experiências. O segredo é não deixar que o dia-a-dia nos pese demais.

As vezes é bom aprender escolher o que fica conosco, e o que deixar passar.

Achei lindo o post, e ao mesmo tempo muito triste.

Jôji disse...

Ah, mas pedras também tem os seus mistérios, pedras também tem sua beleza.

E dependendo do caso, pedras podem ser indestrutíveis. ;x

Tefy disse...

eu acho que sou meio pedra também.. mas o tempo vai me moldando, aos poucos, com a vida que me é destinada..

Lele ahazou, lindo..

Katia K. disse...

Oi, Lele! Muito legal seu blog.
Como muita gente já deve ter feito, segui o link que estava no TDUD?
Adorei esse texto, e as imagens também são lindas.