Fui acompanhar meu pai à quimioterapia, na sexta-feira, mas só consigo falar disso hoje. Quer dizer, nem falar consigo, mas escrever, talvez um pouco. Não me faltam palavras, nunca. Pra eu não ter palavras, é porque tá difícil.
Ele estava todo feliz, confiante mesmo, até a hora em que ameaçaram internar de novo. Quer dizer, internaram, porque a gente ficou lá no hospital mais de 8 horas. Eu e meu pai. Conversando.
Isso me lembra da manhã da minha vida, lá pelos meus sete anos de idade. A gente nunca conversou, porque meu pai não é de palavras. Pra ele falar, é porque tá difícil.
A gente andava de moto, eu na garupa, abraçada àquele meu pai alemão de camisa pólo, com cheiro de perfume verde. A gente fazia a travessia Ilhabela-ilhota da Praia Grande, eu nas costas do meu pai, agarrada à minha falta de medo. À minha coragem de ser filha de um homem grande, forte, destemido e calado. Meu pai.
Na sexta-feira, no meu outono, caíam folhas e lágrimas escondidas, e as palavras jorravam da boca do meu pai. Ele contou piadas, enquanto lhe injetavam a droga, e falou dos fantasmas que, segundo ele, povoam a sua cabeça e somem na frente do médico. "Bobagem, pai", eu dizia.
E o quarto da quimioterapia era decorado de abelhinhas pintadas. "Eles pensam que eu sou criança", disse ele. A gente riu. E eu me lembrei do chão da cozinha da minha infância, quadriculado, feito colméia preta e amarela, onde eu, brincando de abelha, ia pra baixo da mesa de jantar enquanto meu pai, minha mãe e minhas irmãs comiam frios e bebiam cerveja sobre a mesa redonda. Eu brincava de ísis, de zunido, enquanto as pernas do meu pai balançavam sem parar.
Por que eu estou falando tudo isso? Porque não tenho palavras ao ver meu pai virar pólen. Fabricando fel, a ísis aqui dentro.